SÃO PAULO – Apesar das projeções de que o bom desempenho da bolsa brasileira seria concentrado no início do ano, o risco tomou as rédeas e ditou o movimento da renda variável no País nos primeiros meses de 2010, afirma o JP Morgan. “Entretanto, eventos na China, Europa e nos EUA mexeram com a percepção de risco, e a liquidez ficou no banco de trás”, afirma o banco norte-americano.
O segundo semestre do ano não deve ser mais calmo, com o cenário global trazendo as estratégias de saída. Por aqui, as eleições, o ciclo de alta da Selic e reversão do movimento do câmbio também não devem trazer tranquilidade ou estabilidade aos investidores. Contudo, os analistas mantêm uma visão positiva para o desempenho da bolsa. “Mas não será um caminho fácil”.
Fluxo estrangeiro e câmbio
De acordo com os analistas Emy Shayo Cherman, Ben Laidler, Brian Chase e Vinay Joseph, o spread soberano do País está se comprimindo e se aproximando aos níveis pré-Lehman Brothers, o que deve atrair mais investimentos para o Brasil. O banco ressalta que as novas ofertas de ações, que devem atingir R$ 15 bilhões nos próximos meses, devem aumentar o fluxo de investimento estrangeiro, que está negativo em 2010. “Entretanto, não há direção de consenso de alocação em ações do País, e o Brasil está sendo considerado um mercado underweight (abaixo da média do mercado)”.
Já em relação ao câmbio, os analistas esperam que o real reaja à alta do dólar e volte a se apreciar, fazendo com que o dólar atinja a marca de R$ 1,70 até a metade do ano.
Política monetária e ações
A política monetária brasileira, por sua vez, inspira cautela. De acordo com o JP Morgan, a taxa básica de juro deve ser elevada em 50 pontos-base já na próxima reunião do Copom, que acontece entre 16 e 17 de março. “A preocupação com a inflação tem crescido na região”, apontam os analistas, que afirmam estar cautelosos para recomendar empresas do País devido ao início do ciclo de alta da Selic.
Ainda de acordo com o banco, as companhias brasileiras não têm mostrado boa recuperação dos lucros, com apenas 47% das empresas que já reportaram resultados superando as expectativas. Com isso, os múltiplos não estão “uma barganha”, na visão dos analistas”.
Commodities em foco nos top picks
Considerando o cenário acima, os analistas mudaram o foco de seu top 10 para o País. Se antes as empresas ligadas à economia doméstica ocupavam mais espaço, agora é a vez das companhias ligadas a commodities. Com as perspectivas de uma recuperação global sincronizada, os analistas do JP Morgan têm uma visão positiva para as commodities, que devem se beneficiar de uma retomada da produção nos mercados.
Vale mencionar que todas as companhias na lista têm recomendação overweight – acima da média do mercado.
Com isso, o JP Morgan acrescentou a Petrobras (PETR3, PETR4) ao seu top 10. Apesar das operações da empresa estarem melhorando mesmo com as preocupações regulatórias e de as perspectivas para uma maior transparência do processo de capitalização serem vistos como positivos pelo banco, o analista Sergio Torres mantém a OGX (OGXP3) como top pick do setor.
Outra empresa adicionada à lista foi a Gerdau Metalúrgica (GOAU4). De acordo com o analista Rodolfo de Angele, a ação é um veículo mais barato de exposição à Gerdau (GGBR4). “Também gostamos da Vale (VALE3, VALE5)”, aponta.
A Suzano (SUZB5) foi mantida na lista com base nos preços mais elevados de celulose, que ainda devem subir em 2010, em combinação com um valuation mais barato do que os pares do setor. A ALL (ALLL11), por sua vez, oferece uma boa exposição à agricultura e infraestrutura, e tem múltiplos descontados.
Já no tema da economia doméstica, o JP Morgan incluiu os ativos do Pão de Açúcar (PCAR5), com boas perspectivas para os ganhos de sinergia. No setor financeiro, o Santander (SANB11) é o top pick devido ao bom crescimento dos empréstimos. Por fim, a PDG (PDGR3) é a escolha entre as imobiliárias, já que tem boa exposição a todos os níveis de consumidor e é negociada com desconto em relação aos seus pares.